Como lido com minha ansiedade digital

Eu não nasci em um mundo online. Pelo contrário, correndo o risco de me sentir uma senhorinha explicando isso, posso contar ao menos uns 10 anos de consultas à Barsa, até que finalmente tivesse um login da AOL para chamar de meu.


Lá no começo, a internet ainda era relativamente fácil de lidar. Dois ou três sites de busca, primitivos canais de comunicação, meia dúzia de blogs - todos diarinho, sem qualquer pretensão monetária. A vida era muito mais simples em baixa resolução, e ainda havia toda essa tela vazia, com o perdão do trocadilho, para que criássemos o que nossa imaginação permitisse a 56Kbps.
Se você nasceu pós anos 2000 e não faz a menor ideia do que eu estou falando, aconselho a visitar o site do Space Jam (que é algo que você provavelmente também não sabe o que é) e tentar imaginar toda uma internet desse jeitinho. Sentiu o drama? Podemos continuar.
Foi lá para 2003, eu diria, que a internet explodiu e a coisa toda passou a desandar um bocado. De repente já não estávamos mais lidando com duendes anônimos que, por pura bondade, disponibilizavam templates ou skins gratuitos para o The Sims. Não, agora era gente de verdade, com nome, foto e buddy poke, que preferia usar o mesmo espaço criativo para odiar, ofender, e esfregar na nossa cara (num shift irônico com o mundo aqui fora), que a internet possuía um padrão a ser seguido, e não nos enquadrávamos nele. Pois é, e você aí, achando que isso começou na era Pugliesi, ha.

Não me entenda mal, poucas coisas me irritam mais do que gente digital-fóbica dizendo que a internet é só horrores, e que adolescente tem mais é que desconectar e ir dar uma volta no parque. Não que você não tenha de manter seu nível aceitável de vitamina D, não é isso, mas, na minha concepção, abrir o coursera e simplesmente aprender como desenhar histórias em quadrinhos em uma tarde pode ser, sim, igualmente incrível e proveitoso. Ainda me lembro das horas que passei na frente do computador aprendendo a programar, desvendando o Photoshop, aprimorando meu inglês, criando meu primeiro site, e até fazendo amigos para a vida toda. Repito, a internet era a terra das oportunidades e posso descansar sabendo que, ao menos, fiz proveito do seu lado positivo por um bom tempo.

Em contrapartida, ainda lembro o dia que minhas fotos e textos foram parar em um desses sites que "gongavam" - ainda se usa essa palavra? meu deus, estou velha até para escrever esse texto - blogueiras da época, armando-se, claro, dos argumentos mais misóginos do planeta. Naquele exato momento, acordei para um mundo onde a internet já não era mais um reduto tão seguro e feliz assim de se viver. A negatividade havia ultrapassado a tela, invadido minha redoma offline e se instalado bem ali, dentro do meu quarto.


Desencadeada pelo tal """blog de críticas""", minha insatisfação com a internet acabou sendo alimentada por anos. Talvez seja mesmo o fato de não ter feito parte desse mundo desde que nasci, mas nunca consegui assimilar por completo muitas das práticas naturalizadas pós redes sociais. Por exemplo, eu não conseguia consigo aceitar ser totalmente aberta em um blog, enquanto lida por conhecidos de carne e osso. Também jamais tive a menor curiosidade de saber o que todo e qualquer conhecido da firma almoçou, vestiu ou onde passou as férias. Quero dizer, eu mal dou conta da vida aqui fora, com todas as suas pressões e expectativas, quem dirá essa nova mini-sociedade, com regras de diplomacia, likes moeda, e gatilhos de ansiedade próprios.

Eu sei que parece uma constatação óbvia, mas foram anos até entender exatamente até que ponto essa mistura do real e o virtual não me faziam bem. Por fim, quando me percebi afetada negativamente por conquistas alheias (que absolutamente nada tinham a ver com a minha pessoa!), decidi que precisaria tomar uma atitude. Não apenas o excesso de informação me incomodava - e a Larie fez uma reflexão incrível sobre como isso pode ser prejudicial -, mas o constante reality show da vida alheia, e, por consequência, a sensação de não estar sendo suficiente na minha própria vida.

Decidi que precisaria de uma estratégia. Investigar exatamente quais seriam meus gatilhos, entender melhor de onde vinha minha sede por informação e, finalmente, aprender a trabalhar com a internet, ao invés de me isolar totalmente. Tracei pequenos planos de ação, e, por fim, percebi que criar algumas contenções na parte digital do meu dia-a-dia parecia ser o melhor caminho para a sanidade:


1. Botões de unfollow, mute e unfriend

Perfis de musas fitness, celebridades sem-qualquer-conteúdo-adicional-que-não-seus-imensos-closets, e beldades instagramers sem camisa poderiam, sim, ser o principal foco desse exercício. O fato é que, honestamente, nunca segui nenhuma dessas espécimes nas redes sociais e, por mais que eu tente evitar, desenvolvi até um certo preconceito com esse tipo de utilização para a internet.

O que me fazia mal mesmo eram, muitas vezes, conhecidos. É difícil confessar, mas não era raro estar navegando pelo Facebook e um post que, veja bem, sequer foi direcionado a minha pessoa, causar uma sensação negativa. Bottan falou um pouco sobre essa sensação nesse video, e foi interessante descobrir que boa parte das pessoas sentem a mesma coisa em um momento ou outro.

O que eu faço: Seguindo o estilo Marie Kondo, ao menor sinal de que aquele post não me faz bem, independentemente de quem seja o autor, clico sem hesitar em um dos botões mencionados acima. A amizade continua, a infelicidade não.


2. Discussões online

Tem muita gente ignorante por essa internet de meu deus. Eu sei, você sabe. E os motivos são diversos; falta de educação, preguiça, fake news, etc. Porém, foi depois de muita argumentação infrutífera, e ataques de stress desnecessários, que descobri algo que já deveriam saber há muito tempo: não é meu papel catequizar o mundo das minhas convicções.

Não estou dizendo que não é possível expressar minha opinião; postar aqui no blog, criar um medium, ou até escrever uma posição política em um grupo virtual (dedicado para aquele fim, pelo amor). No entanto, ficar persistindo na discussão, e, principalmente, reforçando meu ponto com ironias e passivo-agressividade ("meu anjo" - abomino!), por melhores que sejam as minhas intenções, não apenas me desgastam, como muitas vezes acabavam tendo o efeito contrário. Como já mencionei nesse texto sobre ideologias: a mensagem pode ser importante, mas a forma que usamos ao transmiti-la é a chave para estimular a empatia.

O que eu faço: Confesso que por vezes chego a ensaiar uma resposta, mas me dou um tempo para postá-la. Cerca de uma hora é mais que o suficiente para me acalmar, esquecer e partir para o próximo video de cachorrinhos.


3. Stalkear

Eu já fui, sim, aquela pessoa que sabe até onde o crush passou o final de semana. Mas existiu um ponto final na minha vida - já falei um pouco sobre isso aqui -  que eu finalmente tive de me colocar contra a parede e questionar O que isso pode me trazer de positivo?

Esse item é particularmente aplicável quando se trata de ex-amigos, ex-namorados, ex-colegas de trabalho ou daquele curso que fiz há 10 anos. Até mesmo com celebridades, existe um certo limiar sobre o quanto eu gostaria de saber. Um novo trabalho? Sim. Quantas coleções de sapatos ou última cirurgia plástica? Definitivamente não.

Posso ser um tanto radical nessa resolução, mas já estamos cansados de saber que as pessoas reais nunca são aquelas das redes. E stalkear é simplesmente se embeber em fantasias que, positivas ou negativas, não acrescentam nada, absolutamente nada, na nossa jornada. Ou seja, pura energia vital jogada fora.

O que eu faço:  Foi mais difícil lá no começo, afinal, curiosidade é um impulso natural do ser humano. Mas depois de inúmeros puxões de orelha em mim mesma, e um exercício brutal de auto controle, aos poucos, passei a me desinteressar. Hoje em dia, não sinto sequer qualquer desejo de saber de mais nada, porque tenho total convicção de ser algo que me faria mais mal do que bem.
Em tempo, quando se trata de artistas que overshare, prefiro só dar uma olhadinha ocasional na página do imdb mesmo.


4. Redes prejudiciais

Isso é muito pessoal, pois conheço gente que se sente muito mal, por exemplo, no Facebook. No meu caso, o Facebook é quase meu reduto feliz. O botão unfollow, já mencionado acima, limpou minha rede de forma que praticamente já não sigo mais seres humanos específicos. A timeline se tornou quase um recanto de receitas veganas, videos de gatinhos e dicas de como fazer uma composteira. Já o instagram nunca me acrescentou muita coisa. Fotos jogadas, muitas vezes sem muito significado, somadas àquela lupa, na qual um clique = um ranço.

No mais, não sou frequentadora assídua do youtube. Reconheço a importância do site, mas tenho uma preguiça imensa dos tais "produtores de conteúdo". Além de sempre me deparar com sugestões de videos que me fazem questionar se a internet realmente foi um avanço para a humanidade, sinto que perdi um tempo precioso do meu dia vendo videos de 20 minutos para conseguir informações que, lendo um texto, levaria 2 minutos ou menos.

O que eu faço: Já mencionei nesse post que decidi deletar meu instagram pessoal. Ainda mantenho um aleatório para as atualizações do blog, mas, por razões citadas no item 1, até que exista ao menos um botão de mute, não me sinto a vontade para voltar.
No caso do youtube, quase não frequento, e procuro sempre blogs sobre o assunto que quero saber antes. Blogs ♡.

fonte da imagem

5. Feed & consumismo

Esse é meio óbvio, mas é indescritível o alívio que senti ao limpar o feedly e excluir blogs focados em maquiagens-moda-recebidos-unboxing-comprinhas. Não que eu esteja culpando alguém, o que eu consumo na internet é de total responsabilidade minha, mas sei bem o quanto minha época consumista-desenfreada se deu por constantes visitas a esse tipo de conteúdo.

Está certo que há quem visite esse tipo de blog e não se sinta compelido a comprar nada (e eu tiro o chapéu para essas pessoas), mas, no meu caso, foi melhor me distanciar para sequer cair na tentação.

O que eu faço: Simplesmente não sigo blogs de beleza. Tudo bem, blogs de livros e coisinhas nerds ainda são meu fraco (e eles estão em todos os lugares, socorro!), mas também já não acompanho nenhum religiosamente. O minimalismo me ajudou bastante nessa questão, e também tento fazer minha parte ao não estimular o consumismo nesse espaço.


6. Notificações

De primeira, foi um pouco assustador desligar as notificações do celular, já que moro longe da maioria das pessoas que eu amo. Mas, veja bem, eu era um caso extremo; chegava a pausar meus filmes e séries a cada poucos minutos só para dar uma conferida na barrinha.

Por fim, me veio a iluminação de que checar notificação no celular é quase como ficar abrindo a geladeira; você sabe que não vai encontrar nada que repentinamente mudará sua vida, mas continua a alimentar a ansiedade. Sabe o ditado, notícia ruim chega rápido? Você certamente não vai perder muita coisa por algumas horas que deixa de visualizar as notícias, ou quem fez uma transmissão ao vivo no Facebook. Como a gente dizia na minha época: quem quer, deixa recado. Pois bem, quem quer, deixa um whats.

O que eu faço: Fiz um teste por uma semana: desliguei notificações de Facebook, whatsapp, sms, aplicativos e joguinhos.
Acabei descobrindo o quanto ficar sem aquele constante bipe na minha vida melhorou (e muito) minha concentração, e, por fim, permanecem desligadas. Não querendo ser a louca do mindfulness, mas uma atividade de cada vez.


7. Unfollowers

Por mais que me doa admitir, eu já fui aquela pessoa que vivia conferindo quem me "des-seguiu" em redes sociais e, pasmem, ficava chateadíssima com o ocorrido. Já cheguei até a "caçar" o indivíduo em outras redes para deixar de segui-lo também, em uma clara demonstração de hipocrisia da minha parte.

Hipocrisia porque, como eu mesma já admiti lá no item 1, clico em unfollow sem ressalvas ou discriminações, apenas para diminuir um pouco essa cobrança interna que esse constante sufocamento da vida alheia traz.

Felizmente, eu acabei entendendo (e vou indicar o video da Bottan de novo) que não necessariamente uma pessoa deixou de gostar de você, ou até mesmo do que você posta. O unfollow apenas indica que, naquele momento da vida dela, suas atualizações não acrescentam, ou não a fazem se sentir bem consigo mesma. Não há que se chatear ou se vingar por isso. Correndo o risco de soar repetitiva: a amizade continua, a infelicidade não.

O que eu faço: Deixei de me concentrar em números e deletei todos os aplicativos que indicam quem deixou de te seguir em redes sociais.



No fim, o que funcionou para mim foi respeitar meus próprios limites de ansiedade e trabalhar com eles, controlando minha exposição ao negativo, àquilo que não traz nenhum benefício. Essas simples resoluções têm melhorado bastante minha relação com a internet, culminando em uma convivência (quase) amigável.


E você? Como pratica seu minimalismo digital?

15 costumes diferentes nos Estados Unidos

Mudanças nunca são fáceis, é verdade, mas elas se tornam ainda mais complicadas quando a cultura e os hábitos não encaixam. Apesar de não considerar a cultura americana muito distante da nossa (e isso me ajudou um bocado na adaptação), pequenos costumes chamaram minha atenção desde que cheguei aqui.

Listei alguns deles - os que achei mais interessantes e/ou bizarros -, mas já vou frisando que a lista é altamente baseada no estado de Utah, e pode variar conforme a região do país.


1. Pontualidade
No meu primeiro jantar com amigos, como boa paulistana que sou, saí de casa um tantinho atrasada. Para falar a verdade, eu não contei como um atraso propriamente dito, coisa de poucos minutos.
Ainda assim, logo que entramos no carro, o marido já estava pegando o celular para avisar a todos que chegaríamos aproximadamente 3 minutos atrasados. "Aproximadamente três minutos".
Veja bem, de onde eu venho, 3 minutos é considerado uma pontualidade invejável. Aqui, se tornou uma das minhas primeiras lições de adaptação: americano não lida bem com atraso.


2. Milkshakes
Varia de restaurante para restaurante, mas uma coisa que me irrita bastante é pedir um milkshake em uma rede fast food qualquer, e receber um... copo com sorvete.
Isso mesmo, uma aberração dessas:

fonte da imagem
é considerada milkshake por aqui. E, acredite, o atendente, como que para enterrar de vez suas esperanças de uma bebida geladinha, ainda cometerá a blasfêmia de entregá-lo com uma colher.

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