Tradições Natalinas

Já é esperado que a combinação bom velhinho + neve + pisca-pisca desperte sentimentos de abraços quentinhos na minha pessoa (textão de ode à data aqui). No entanto, o fato de ser o primeiro Natal na casa nova e, de quebra, o primeiro com a mamãe vindo visitar, culminaram em um frenesi natalino mais intenso que o normal.


É como se o mês de dezembro tivesse girado todo em torno da data, com tradições antigas e hábitos fresquinhos se unindo para me distrair da grande pressão dos exames finais (e decisões profissionais pesadíssimas). No fim, acabou sendo o melhor mês do semestre, e eu só queria que Papai Noel pudesse dar uma passadinha rápida todo dia 25.

A árvore

Confesso que gosto das falsas, e quanto mais dobrável (leia-se fácil-de-guardar), melhor. Acontece que o marido tem toda essa nostalgia com o cheiro dos pinheiros e, depois de ler esse artigo, concordei em sair à procura de um espécime verdinho e perfumado.



Gratidão

Queria ter nascido com o dom de saber agradecer mais e reclamar menos. Não necessariamente fazer a pollyana, mas, ainda assim, enxergar o melhor nas situações, por pior que elas se apresentem. Queria praticar mais parar por uns minutos, para perceber todas as coisas que conquistei, sem me focar naqueles detalhes que nunca sairam como eu queria. Um tanto mais contemplação, um tanto menos pressa.

Mas eu sou cheia de falhas e, talvez, essa seja uma das piores. Tudo bem, essa constante insatisfação pode ser produtiva às vezes, e eu acredito que me impulsiona a ir atrás de muita coisa. Convenhamos, comodismo nunca foi meu nome do meio. Ainda assim, gostaria de poder parar e olhar ao meu redor, me sentir grata por tudo que deu certo até aqui. Por tudo que deu errado também, afinal, o que importa são as lições aprendidas.

O Thanksgiving pode não significar muito para mim, afinal, nunca fez parte da minha cultura, mas eu achei incrível essa ideia de tirar um dia para agradecer por tudo aquilo que tomamos como ganho. É triste sim, que precisemos de um dia específico para desligar os eletrônicos, aproveitar a família, comer com calma e sermos gratos. Mas funciona.

O dia aqui em casa teve muita colaboração familiar na cozinha. Não sou a maior fã do ambiente, sequer sei ir muito além do ovo frito e do arroz na arrozeira, mas ajudei no que pude. Já que é para fazer, vamos caprichar. E, no fim, o almocíneo ficou 99% tradição americana, mas aquele 1% rebeldia:


Das abóboras

Fosse para escolher uma estação favorita, certamente seria o Outono.

A temperatura se torna mais amena, o calor já não sufoca mais. As cores vibrantes, tons de laranja e amarelo, preenchem as montanhas como fagulhas. É como se tudo ao meu redor estivesse se preparando para uma grande mudança, deixando para trás as folhas, as aparências que já não servem mais, e eu não consigo evitar de me sentir da mesma forma.


O que me causava um leve incômodo, de repente, parece insuportável. O comodismo já não faz parte de mim, as escolhas não paralisam mais. Quero gritar, correr, bradar minha insatisfação, tomar as rédeas. Não é o impulso que toma conta, é a coragem de fazer o que eu já deveria ter feito, enquanto a apatia e o mormaço asfixiante do verão não deixavam.

O blog, esse desapegou de vez do layout semi profissional. No melhor estilo post-extravasador da Ana, assumiu de vez sua identidade diarinho e seu lado pior blogueira do mundo.

Life



Eu queria poder dizer que eu voltei agora para ficar, que aqui é meu lugar, mas com essa vida acontecendo, não sei dizer bem quando poderei dar as caras novamente.

Para resumir os últimos meses, os Estados Unidos, que até o começo do ano ainda era sombra e água fresca, virou do avesso. Virou trabalho, mestrado, obrigações e adulthood. Ia acontecer eventualmente, eu sei, mas a gente sempre quer acreditar que o verão vai durar eternamente.

Ainda hoje eu me peguei pensando no ponto A e no ponto B, nessa longa curva entre eles, e fica difícil equacionar como cheguei aqui. Pensar que nos últimos posts, lá estava eu, recolhendo ovinhos coloridos no parque, animada por mais uma viagem, por mais lugares novos para explorar. E agora não tem mais viagem, pelo menos não por um ano. Mestrado é coisa séria, minha gente, e férias de inverno/primavera não há. O trabalho e a falta de feriados americanos colaboram menos ainda. É oficial, a festa acabou. What now, Joseph?

Posso dizer que é por uma boa causa e vou levando até que bem. As notas estão boas, os managers satisfeitos. Aliás, está aí outra coisa que jamais imaginei na vida; trabalhar em uma das maiores empresas do mundo corporativo yankee. Estressante? Tem dia que se eu não matar um até o meio dia, não sobrevivo. Mas recompensador. Especialmente pela troca de culturas, de experiências de vida, de amizades transoceânicas. O parceiro de trabalho indiano, a colega de sala italiana, o manager americano, a dupla na lição de casa chinesa. Estudar e trabalhar nos EUA é como fazer parte de um grande caldeirão de misturas, é se acostumar com os mais variados sotaques, achar graça nos mais variados sensos de humor. E se sentir uma pequena, mas significante parte do mundo. Como se tivesse um lugarzinho reservado ali só para mim.

Por falar em lugarzinho, agora eu finalmente tenho o meu. Ela tem jardim florido, cerca branca e mais quartos do que eu jamais vou usar. E minha. E nossa. Veja só, meu nome em uma hipoteca no norte do mundo. Mais um desvio na curva que eu jamais seria capaz de prever, que eu sequer acreditaria se me contassem há pouco mais de um par de anos.



Das leituras de 2017, no entanto, ficaram só decepções. Era uma vez existiu essa meta de ler 4 livros por mês. Agora, o tempo livre foi todo ocupado por programação e modelagem e sql e R e dashboards infinitas e... socorro. Sinto muita falta da Agatha, da Rowling, da R.J Palacio. As séries então, só consegui maratonar HIMYM porque os episódios de 20 minutinhos eram todo o tempo que eu tinha entre jantar e dormir.

"É tudo por uma boa causa", repito. E repito tanto que acredito. E acordo mais um dia para enfrentar esse frio cortante de Utah, nessa vidinha que vou construindo aos poucos. Por que quem sabe que intrincada equação me levará ao ponto C dessa vez.

Da decisão acadêmica

Estou aqui, sentada com o note no colo, encarando o cursor piscando na tela há horas, me sentindo incapaz de redigir qualquer resposta às faculdades. Não consigo evitar de sentir um gosto amargo enquanto junto palavras para justificar minhas recusas. Não apenas por ter sido incrivelmente bem tratada nas visitas que fiz durante o mês de Abril, mas também pelas oportunidades que me sinto deixando para trás.

É claro que boa parte dessa minha ansiedade se justifica pelo fato de que essa não é apenas uma escolha desleixada chocolate/baunilha, mas sim um presságio, um enorme golpe de sorte para onde posso direcionar minha vida. Quero dizer, eu até me considero uma pessoa pragmática e metódica quando se trata de assuntos acadêmicos, porém, mesmo tendo ponderado todos os cenários, mesmo depois da listinha pro/con Rory Gilmore, acabei por finalmente me conformar do óbvio; não é possível ter certeza do futuro. Não posso, e jamais poderei, confirmar qual seria a decisão mais acertada, mesmo porque não tenho outras realidades paralelas para testar. Sylvia Plath me entenderia.

lista pro/con no bujo

Um ovo, dois ovos, três ovos assim

Correndo o risco de parecer a diferentona, devo confessar que chocolate não é exatamente meu doce favorito. Quero dizer, bolo de chocolate ok, leite com nescau também. Agora, chocolate por chocolate, a barra mesmo, nunca me apeteceu. Por essa razão, desde que mudei para os EUA, não me importei muito de substituir a minha tradição de Páscoa, a consagrada "troca de ovos de chocolate", pela tradição local, a egg hunt.

egg hunt consiste em decorar ovos cozidos (sim, os de galinha mesmo) com tinta, glitter, cola, adesivos e qualquer outra coisinha que insista em penetrar em cada fibra do meu carpete. Depois, a ideia é escondê-los em alguma área aberta e chamar as crianças para "caçá-los" na manhã de Páscoa.

arsenal de Páscoa

Ainda não é a cartinha de Hogwarts, mas.

Março foi um mês bom e ruim. Ruim, porque passei boa parte do mês cabisbaixa ao ver um total de zero dos meus esforços rendendo resultados. Bom, porque, em face da estagnação, acabei por seguir a maior filosofia que a humanidade respeita: Hakuna Matata.

Só que eu não fugi para uma savana na África, mas sim para o Hawaii, que, convenhamos, é quase tão lindo e ensolarado quanto. Não que seja um costume me esconder das preocupações (ainda mais para me concentrar em sol, mar, hula e dedinhos na areia). Só que eu cheguei ao meu limite de ansiedade quando meu cérebro, na sua melhor atuação de sabotador da vida, finalmente me convenceu que toda aquela demora só poderia culminar em uma cartinha oficial de rejeição.

dos seus problemas, você deve esquecer
Uma coisa que eu sempre tive em mente, desde que cheguei no hemisfério norte, é que 1, eu não queria ser uma stay-at-home-mom (nem mesmo na versão child-free). E, 2, eu queria ser capaz de aplicar para bons empregos e competir por eles de igual para igual com os nativos, sem jamais me sentir inferior ou subjugada por ser de outra nacionalidade.

Eu sei que existem muitas outras alternativas, ainda mais na América. Só que eu cresci muito com essa resposta "acadêmica" enraizada, para qualquer questão do universo e tudo mais. Estudar é o meu tipo de atividade, o que me sinto bem fazendo, e, há quem diga, meu espaço seguro. No mais, a ideia do Mestrado já não era tão distante assim. Antes eu estava me preparando para fazê-lo no Brasil mesmo, e agora, parecia não haver qualquer motivo para deixar de seguir com o plano.

Na última sexta-feira chuvosa, acordei um pouquinho tarde para os meus parâmetros. Eu sou insone, veja bem, e dormir mais de 5h por dia sempre foi uma grande conquista. Só até aí, o dia já parecia bom demais para ser verdade e eu não me daria ao luxo de esperar nada além disso.

Levantei e, enquanto aguardava o susto habitual com a torradeira, fui xeretar meu e-mail. Esse foi um costume que não consegui perder no Hawaii; checar meu email de hora em hora ainda era minha dose homeopática de fracasso diário. Só que, finalmente, naquela sexta-feira tudo mudou. Era o fim da espera, o título me encarava: "MS decision".

Como que para testar minha situação cardíaca, além das minhas habilidades com o gerenciador de arquivos no celular, a decisão seguia anexa em um pdf. Pouco ansiosa, sai clicando em tudo, troquei de tela, sumi com o arquivo e, depois de quase jogar o aparelho janela afora, sem qualquer glamour das cartinhas que vemos nos filmes, foi possível ler: Admissions Packet 2017.


Naquele mesmo dia à noite, recebi o e-mail de aceitação da segunda universidade. Não teve o mesmo impacto da primeira, é verdade, mas teve um baque de realidade ainda maior. Como eu sou um serumaninho padrão e nada-nunca-está-bom, acabei por entrar na famigerada fase do medo e incertezas. Para onde devo ir? Praia ou montanha? Leste ou oeste? Centro ou Norte? Largar tudo e vender brigadeiro? Não há listas de pro/con suficientes para dar conta.

Harry Potter como guardião das admission letters
Como eu ainda não me decidi, esse post vai terminar assim mesmo, no pior cliffhanger desde qualquer episódio de The Walking Dead (que temporadazinha ruim, aliás).
Ficaremos no aguardo das cenas dos próximos capítulos.

Do mínimo ao ideal

Tive meu primeiro contato com o Minimalismo assistindo a uma palestra no TEDtalk, lá para o finalzinho de 2013. Muita coisa mudou em mim naquele ano (mais ou menos resumido nesse post), e uma delas foi começar a prestar mais atenção na minha convivência com os objetos amontoados em casa.

Até então, eu ainda fazia parte daquele mundo mágico onde abarrotar o armário de fast fashion e maquiagens nunca usadas definiam a fórmula da felicidade. No entanto, apesar de alguns objetos de fato me trazerem alegria, estava claro que eu mantinha a maioria (especialmente aqueles adquiridos na febre pós primeiro emprego meu-deus-agora-eu-tenho-um-salário-e-posso-gastar-vários-dinheiros!!11!!) apenas por uma ilusão de realização pessoal.

Foi no processo chamado decluthering (ou destralhamento) que eu encontrei uma forma de reduzir dolorosamente boa parte das minhas tralhas. Claro que a mudança de casa – e o encolhimento significativo do meu quarto – criou uma obrigação real de desapego, porém, naquele verão de 2014, eu pude finalmente entender o quanto acumular objetos já não me completava, sequer indicava o que eu havia conquistado na vida até então.

Dia desses, assistindo ao documentário dos Minimalistas no Netflix, me peguei refletindo sobre o que a filosofia representou na minha vida nesses últimos três anos. Achei que seria até justo eu dizer que "abandonei" o minimalismo, mas, na verdade, ele tem consequências diretas na minha vida até hoje. Seja dando uma volta no shopping ou faxinando a casa, toda aquela ideia da praticidade, do essencial e do acúmulo consciente ficou internalizada em mim, e acabou virando hábito, assim, sem eu precisar me policiar para isso. No fim, acredito que o que eu larguei mesmo foi aquele Minimalismo idealizado e caga-regra, que a internet insiste em se focar.

Tudo bem, mesmo lá no começo eu nunca consegui aderir à maioria dos projetos relacionados ao Minimalismo. Boa parte deles – Projeto 333, armário cápsula100 things challenge, etc – envolvem receitinhas quantitativas que, para mim, jamais funcionariam (e olha que sou de Exatas!). Fazer inventário de roupas, impor limite numérico para compras, se esforçar para espremer toda a sua vida numa mochila, tudo isso pode até ajudar com a disciplina, mas, por fim, acabam mesmo me causando mais ansiedade que satisfação.

Toda a maquiagem que possuo hoje em dia. Existe algum projetinho com o número cabalístico 10?
Além disso, existe uma visão romantizada que coloca o minimalista como aquele que vai pedir demissão do trabalho e sair mochilando pelo mundo, muitas vezes sem um centavo no bolso. Reconheço que pode até render os melhores blogs, mas acho plausível afirmar que nem todo mundo seria feliz na experiência. Contrariando Elle Lune, em Eu sou as Escolhas que faço, o caminho da segurança nem sempre é apenas o caminho que os outros querem para você. Eu gosto de segurança. Eu preciso de segurança. Almejar um trabalho fixo, dinheiro para viagens com passagens de volta, poder cuidar dos pais quando eles envelhecerem, nada disso é condenável. Somos todos pequenos experimentos da pirâmide de Maslow e, só porque decidi viver com o meu menos, não significa que tenha de me forçar a viver com o mínimo alheio.

Aliás, essa imposição do desapego desenfreado, onde todo e qualquer objeto espalhado pela casa passa a ser visto como inimigo, acaba sendo tão pouco produtiva quando a própria obsessão pelo consumo. Por exemplo, Emilie Wapnick explica que algumas pessoas simplesmente não possuem uma vocação. E esse tipo de indivíduo – eu, oi – acaba por pular de um hobbie a outro, voltando às origens ou criando novos, de acordo com seu processo criativo individual. Coisa de amar estudar música por anos, largar de repente para se dedicar à fotografia, para, dali a uns meses, encostar a câmera enquanto volta para a guitarra. Por essa razão, desapegar de todo e qualquer objeto que esteja "ocupando espaço" na casa não necessariamente é a resposta para todo mundo. Nem sempre esses objetos sem uso no momento estão em excesso; eles podem ser, na verdade, ferramentas que possibilitam exercer paixões esporádicas. E tudo bem não se livrar deles.

É claro que o Minimalismo pode ser encaixado em todas essas situações sem deixar de ser, bem, Minimalismo. Como quase toda ideia jogada na internet; o conceito é genial, o fandom é que estraga. Ao contrário do que muita gente passou a pregar por aí, ele não é, ou não deveria ser, uma seita carregada de mandamentos sobre como manter um guarda-roupa com 47 ½ peças em preto e branco. E eu nem acredito que ele tenha sido pensado inicialmente dessa forma, muito menos é o que os Minimalistas pregam. Só que, infelizmente, a polícia da vida alheia chega ao ponto de fazer com que praticantes evitem o assunto, para não aterrá-lo em exigências extremistas.

O que eu aprendi com o Minimalismo afinal?

Dado que não posso (e não tenho qualquer ambição em) ter tudo, o Minimalismo me ensinou a priorizar o que é de fato importante para a minha vida. Veja bem, prioridades, não privações. Eu mencionei o quanto foi doloroso passar pelo destralhe inicial e, hoje em dia, eu percebo que não precisaria ser. A ideia não é se focar no quanto você possui, mas sim por que você possui. Não há nada de errado em manter sua coleção de livros ou cartas antigas, que te trazem uma sensação de conforto quando relidos. Manter lembranças e outros objetos significativos não vai te fazer menos minimalista que o cara que visitou 60 países com todos os seus bens em uma mochila. A ideia vai muito além disso. Nas palavras de Joshua Millburn: “ame pessoas e use objetos, porque o contrário nunca funciona”.

Ao longo desses três anos, fui jogando fora as receitinhas de internet e me concentrei em viver melhor, com cada vez menos apego material. Aliás, acho que essa liberdade foi a melhor coisa que o Minimalismo me trouxe; aprendi a viver com mais equilíbrio e menos restrições. Isso significou não só uma economia financeira, como acabei apreciando mais bem cada objeto que eu possuo (sem excessos, consigo usá-los muito mais vezes). Obviamente eu não deixei de querer coisas, mas passei a questionar muito mais a utilidade antes de comprá-las.

Por que eu mantinha mais de 30 esmaltes, já que sempre acabava escolhendo o preto, o vermelho ou o azul?
Hoje eu enxergo o Minimalismo como uma forma de não deixar que os bens materiais orientem minha vida, ou preencham algum vazio que deveria ser trabalhado em sentimentos, experiências, pessoas ou relações não substituíveis. E saber atribuir a cada bem material o valor que ele possui nada tem a ver com vestir-se em preto e branco, ou contar quantos batons você tem. Na verdade, é uma ferramenta para preencher seu espaço com o essencial e suas possibilidades, estimulando ainda mais sua veia criativa. Possibilidades, aliás, que dificilmente caberiam em apenas uma mochila.

Resenha: A única certeza da vida é que um dia você vai morrer

Comprei esse livro por impulso, num dia que tudo parecia dar errado. O título vinha a calhar; um misto de pessimismo com verdade universal assim, jogada logo de cara. Mas, se minha intenção era arrumar algum motivo fúnebre para odiar ainda mais o mundo, "A única certeza da vida é que um dia você vai morrer" (David Shields) falhou miseravelmente.
Veja bem, ele é sim um livro sobre a morte. Mas talvez aceitá-la seja, na verdade, uma celebração da vida.

fui obrigada a recorrer a um mockup por ter deixado o livro no Brasil. em tempo: ele não tem capa dura
A única certeza da vida é que um dia você vai morrer é um livro muito pessoal, no qual o autor escreveu sobre seu pai. É basicamente isso. O pai dele tem 97 anos e, impressionado com a vivacidade do senhorzinho, David Shields escreveu um livro sobre nascimento, morte e tudo aquilo que acontece entre esses dois eventos.

Com uma escrita bem humorada (e, às vezes, até sarcástica), o autor divide os capítulos conforme as etapas da vida são divididas de fato, isto é; nascimento, infância, adolescência, fase adulta, velhice e morte. Além de dados biológicos e pesquisas quantitativas relacionadas ao desenvolvimento do corpo - a parte mais dolorosa da leitura, se você também já passou dos 30 -, o livro faz uma síntese de pensamentos de filósofos, escritores e outras personalidades, amarrando cada frase num contexto geral de fragilidade humana.
É uma batalha incansável entre o questionamento da juventude e a negação do envelhecimento. David passa a impressão de tentar a todo momento aceitar a mortalidade do pai - e a sua própria -, mas, ao mesmo tempo, tornar ambos imortais. Afinal, as dores nas costas, a pressão alta, os cabelos brancos, todos os indícios de que o corpo se deteriora estão lá, mas, por alguma razão, seu pai permanece firme e forte, caminhando por 3 km à biblioteca até os 95 anos.
"O berço balança sobre um abismo, e o bom-senso diz que nossa vida não passa de uma breve faísca entre duas trevas eternas" - Vladimir Nabokov
Apesar de ainda estar na fase adulta (no capítulo da vida real), e não saber exatamente o que me espera - se sequer chegarei à idade do pai de David, ou sequer terei a mesma vivacidade -, posso dizer que cada passagem trouxe uma espécie de conforto inquietante. Um dos meus capítulos favoritos, por exemplo, faz um apanhado de frases ditas por famosos antes de morrer. Sim, soa dramático, ácido, mórbido. E, de fato, a impotência diante dos últimos minutos de vida é ultrajante, mas ser capaz de resumir toda nossa existência em um último sopro conexo de sílabas, por vezes até cômico-trágico ("O papel de parede e eu estamos lutando uma batalha de morte. Um de nós tem que sair daqui" - Oscar Wilde, ao morrer num hotel cafona de Paris), nos coloca no controle novamente.

mais mockup porque sim.
A narrativa se baseia na história pessoal de David e seu pai, mas ela é sobre mim, sobre você, sobre os nossos 99,9% de genes idênticos a todos os outros 7 bilhões de seres humanos. Nosso corpo pode ser único em inúmeros aspectos, mas nossas dores são compartilhadas. Estamos todos envelhecendo.

É de se esperar que o livro caminhe para a morte, mas "A única certeza da vida é que um dia você vai morrer" deixa a reflexão do que exatamente estamos fazendo com a nossa jornada até lá. Eu não posso garantir que o final seja aceitável ou plausível. No entanto, também não posso fazer essa afirmação sobre o capítulo final da minha própria vida. Se terminar sem muita graça, se deixar de explicar alguns mistérios, se for interrompida em uma meia frase, mesmo assim, já terá valido a pena.

créditos do mockup: artem yakimchuk

Diário de Viagem: Washington DC - Parte 1

Ainda no ritmo de ode à 2016, Washington D.C. foi mais uma dessas viagens inesperadas, que decidimos fazer só porque já estaríamos pelas bandas da costa leste de qualquer forma. Um caso clássico do ano que passou: viagem de última hora, com passagens compradas no último minuto e roteiro decidido no último segundo.


Não era segredo para ninguém que a capital estava no meu top 1 de cidades-que-quero-visitar. Já defendi aqui que conhecer mais sobre o lugar pode ajudar a se sentir menos peixinho fora d'água e, tendo passado boa parte do ano que passou descobrindo e caindo de amores por Utah, era hora de contemplar a big picture. Não que eu tivesse qualquer pretensão em compensar os anos de aulas de história dos nativos, mas só de entender melhor quem foram os queridos ilustrados no meu dinheiro, eu já me daria por satisfeita.

Adoráveis imprevistos 2016/2017

Foi lá no comecinho de 2016 que eu escrevi sobre ter aceitado, finalmente, que resoluções de ano novo não são para mim. Não foi um caminho fácil (não para uma obcecada por controle), mas 2015 havia me forçado a deixar a vida fluir e, de quebra, me mostrado que pisar fora da zona de conforto poderia sim resultar em surpresas agradáveis.
E nessa vibe, lá em Janeiro/16, decidi jogar o bullet journal em um canto esquecido do armário, e começar o ano apenas com uma lista simples de 4 diretrizes - não metas - para o ano. Veja só, 2016 não teria planos, mas tampouco teria restrições.
No fundo, era um projeto ousado com pinta de preguiçoso. Porque o deixa a vida me levar, vida leva eu parece fácil, mas, para a neurótica aqui, sempre soou algo como contornar um abismo com os olhos vendados. Pelo menos eu poderia me confortar no fato de que, caso quisesse/precisasse mudar qualquer coisa no meu ano - mesmo que fosse para virar 180° -, não haveria qualquer frustração associada a uma lista pré-estabelecida. O objetivo era mesmo ver no que dá, com o bônus de testar toda aquela espontaneidade positiva ensaiada por 2015.


Deu certo. 2016 não teve planos, expectativas, não seguiu qualquer textbook e, ainda assim, foi um dos melhores anos da minha vida. Tudo ocorreu como o planejado, ou melhor, não planejado. Um ano inteiro levado no susto. Doze meses de adoráveis imprevistos.

E qual o poder de uma lista afinal? A intenção, lá no começo, não era ficar e casar, não esse ano. Estivesse nas metas -voltar para o Brasil, teria feito alguma diferença? E -mudar de estado? Todo o apego que eu tenho hoje em dia por Utah (quase inexistente em jan/16) seria diferente? Estaria acompanhado de frustração? Porque, cá entre nós, é muita pretensão do dia primeiro querer saber tudo o que a gente deseja para os outros 364.

2016 não teve lista, mas teve aproveitar mais o momento. Teve menos consumismo. Teve viagens, tempo com a família, mais estudos e leituras. Em contrapartida, teve ansiedade, desorganização, pressa, saudade. E eu quero 2017 do mesmo jeitinho; sem planejamento, com os níveis de lágrimas e risadas sendo ajustados ao longo do percurso.


Por isso, pensei em fazer um pouco diferente esse ano. Não vou sequer enumerar diretrizes, 2017 vai ter apenas um mantra: Faça mais daquilo que te faz feliz. Pode significar qualquer coisa, e ser regulado conforme as mudanças internas/externas. Um dia pode ser estudar mais, assim como, num outro, pode ser me dar mais tempo de descanso. Sair mais com os amigos, ou passar mais tempo debaixo das cobertas, somente na companhia de um livro. Cozinhar uma comidinha saudável, ou saborear um big mac repleto de sódio. As possibilidades são infinitas.

Se o objetivo final é otimizar a satisfação pessoal minimizando frustrações, que venha 2017 sem expectativas. E que o ano tenha espaço para surpreender mais uma vez .

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