Menos ideologia, por favor!

Eu jurei para mim mesma jamais falar de política aqui no blog. Aliás, eu prometi largar essa vida de discussões eleitorais pela internet quando percebi, ainda ano passado, que elas pouco estimulavam qualquer debate enriquecedor, seja porque a maior parte da população "já escolheu seu lado", seja porque a internet é aquele maravilhoso mundo dos trolls, onde ninguém quer saber de se entender mesmo.

Acontece que esse post não é exatamente sobre política. Ou é, mas, digamos, como uma licença poética.

Há uns 3 meses, em uma noite entediante - que saudades do meu tédio noturno -, eu resolvi conduzir uma espécie de estudo social no meu Facebook: saí mandando mensagem para todo mundo com quem eu não conversava há anos, perguntando como estava a vida, puxando assuntos específicos (se nos tornamos amigos virtuais por algum ponto em comum - jogos, grupos, etc), querendo saber como a pessoa estava se sentindo, se eu podia ajudar de alguma forma, etc.

O objetivo inicial era manter contato, claro, mas eu confesso que também queria curiar as transformações interessantes pelas quais as pessoas passam num período de alguns anos. E acabou sendo um 'teste' realmente enriquecedor; li histórias tristes, algumas emocionantes, relatos cômicos, e, que bom, a maioria com quase-finais felizes - já que, bate na madeira, ainda não chegamos ao final propriamente dito. Gente que superou doença grave, gente que trocou de profissão, gente que tinha um sonho que, mais tarde, descobriu ser uma grande roubada, e, claro, gente que não saiu do lugar (e isso nem de longe é ruim, também sou dessas que não mexe em time que está ganhando).

Duas considerações que tirei dessa experiência foram:

1. surpreendentemente ou não, homens pareceram mais "agressivos" na abordagem ("mas para que você resolveu falar comigo só agora?"). Que fique bem claro que eu nunca ignorei nenhum amigo na rede, e que eu estava ali, a exato um clique de distância, tanto quanto a pessoa também estava.
2. muitas pessoas precisam de um ombro amigo, mas têm vergonha/medo/receio/orgulho de pedir ajuda, mesmo a virtual. Assustou quanta gente começou a desabafar comigo, enquanto eu - claro, não sou psicóloga -  me identificava com as situações e desabafava junto. Uma troca de sentimentos e experiências que estavam ali, prontas para acontecer, mas que por uma distância física e, pasmem, virtual, simplesmente não acontecia.

Mas, Kari, o que isso tudo tem a ver com política? Ok, para combinar com a pauta, eu menti. O fato é que eu tirei três considerações dessa experiência. E a terceira foi que, nos últimos anos, as pessoas acabaram se bipolarizando até o ponto de, muitas vezes, inviabilizarem uma cacetada de relações humanas.

Existiu esse terceiro grupo, de 4 ou 5 indivíduos, que, assim que eu mandei um oi-inicial-sem-compromisso, já saiu descarregando política em cima de mim. Tudo em forma de questionário, como que para conferir minhas ideologias, antes de conceder a grande honra de suas conversas. Pois é, você não sabia? Parece que agora precisa de carteirinha de partido só para bater um papo.

Como eu fiquei na blasé, forçando um tá, mas e a família? e tentando mudar o foco para uma conversa o mais saudável possível, os queridos partiram para outras abordagens; ou simplesmente passaram a me ignorar ou a espalhar uma onda de terrorismo ("tô perguntando porque, aqui no Brasil, quem tem inclinação para o partido tal não pode mais sair na rua, viu?" - Mas quê?). E se quer saber, nem adianta eu alegar que isso é coisa de gentinha do partido X, porque não é. Eu tenho certeza que, se eu fosse mais inclinada ao X, grupinho Y faria o mesmo.

Isso me fez pensar bastante, porque às vezes, juro, eu me sinto até meio excluída da blogosfera. Já não compactuo com boa parte da ideologia predominante no meio, e, as partes que eu concordo, não sinto a menor necessidade de escrever a respeito em todo e qualquer texto. Parece que, nessa era de extremos, muita gente decidiu se tornar uma espécie de "vigilante da justiça social", e, pela própria natureza do cargo, precisa deixar isso bem claro a todo momento. É doutrina político-sociológica para todo lado, em análise de filme, em resenha de maquiagem, e eu já não sei bem como lidar. 

Ou até sei; deixo de comentar em muito post de blog que eu gosto, porque mamãe me ensinou que, se você não tem nada de bom para dizer, melhor ficar calada. Aliás, até em grupo blogueiro de facebook eu evito assuntos polêmicos, já que, muitas vezes, fica bem claro o quanto não se trata de uma discussão, mas sim de um alistamento, no qual discordantes serão virtualmente linchados. Na sede de espalhar enfiar goela abaixo amor dogma político, segue-se um festival de hipocrisia, com direito a muita falta de respeito e má vontade com o coleguinha.

E isso não é exclusivo do Brasil, todo mundo sabe como as coisas andam bem divididas por aqui também. Ok, acho que o Brasil anda pior (por causa do momento político-financeiro delicado que nos encontramos), mas basta uma voltinha pelos comentários na página do Huffington post, ou do Wall Street Journal, para assistir o que parece uma guerra mundial de pólos, sem espaço para aquele velho vamos conversar, eu colaboro com você, você cede um pouco também.

Semanas atrás eu decidi ir ao rally do Gary Johnson, um candidato de third party com poucas chances de ganhar, mas, aparentemente, algumas propostas interessantes. E, no fim, era disso que eu estava atrás mesmo; ideias e soluções, ao invés do festival de insultos da quinta série que vêm sendo promovido pelos candidatos dos extremos.


O que aconteceu foi que, aquele dia, presenciei muito mais que um discurso político manjado. Dado que a indicação dos candidatos de cada partido desagradou em grande parte os eleitores por aqui, muitos acabaram procurando uma alternativa. Sabe, para ver se o mundo volta a girar mesmo, ao invés de ficar parado enquanto a esquerda e a direita medem forças. E, durante o rally, acabei assistindo essa cena que anda em falta na internet; uma união de ideologias diferentes, dispostas a trabalhar e a ceder por um propósito comum. Um mar de camisetas do Bernie, batendo palmas para discurso de ex-governador republicano, enquanto a pauta seguia rumos.

Isso não significa que eu torça cegamente para Gary (estou me dando uma licença para falar de política aqui, mas não taaanto assim), mas sim que eu finalmente passei a acreditar na possibilidade de se unir em outras vertentes que não os extremos. Gary falava sobre ser contra a pena de morte, o que desagradava os conservadores, mas proclamava a favor da Second Amendment, o que deixava os liberais insatisfeitos. Só que ele explicava suas escolhas (e falava abertamente sobre suas mudanças de posição ao longo dos anos), sem revoltas, violência verbal ou imposições, o que fazia as pessoas ouvirem, participarem, e quererem saber mais.

Olha, a não ser que você seja um zumbi de cabresto, acho tarefa impossível encontrar um representante, ou um grupo ideológico, com que você se identifique 100%. Pequenas concessões se fazem mais que necessárias, ainda mais quando a gente cresce a escala e pensa em um território com milhões de habitantes, cada um com sua experiência pessoal e modus operandi. O que não dá mais é engolir a agenda de quem bate o pé e afirma que TEM QUE SER DO MEU JEITO E DOS MEUS TRUTAS PORQUE É ASSIM QUE A GENTE VAI CONSEGUIR A PAZ. O quê? Você acha mesmo que as pessoas vão pensar "nossa, agora que ele está impondo, consegui ver toda a verdade. Obrigada por me iluminar"? Ou será que isso só vai dividir as pessoas mais ainda? Ou, pior, será que não é esse o objetivo de certas ideologias mesmo, especialmente aquelas que se apoiam no enfoque "novela" para funcionar? Porque é o que mais tem por aí, né. Gente sendo rude e autoritária para depois ainda querer denunciar a maldade vilanesca do outro, que não enxergou a clara beleza e razão do seu argumento-de-mocinho. Pudera, né, colega.

Tive de editar esse post só para colocar esse quadrinho perfeito da Sarah Biegler
Olha, talvez eu esteja sendo muito unicórnio feat. arco-íris pensando que as coisas poderiam ser resolvidas com concessões. Ainda mais em uma época que não parece mais haver espaço para brainstorm, só afirmações generalizadas, na direção do "se não acha o mesmo que eu, está passando vergonha""minha empatia é real, a sua é close errado" ou "sou especialista em medir prioridade entre seres humanos e, mais ainda, sei exatamente o que é o melhor para a vida de cada um deles". Mas, o fato é que, para mim, o atual brado fervoroso da internet parece que só reforça divisões e animosidades, contribuindo cada vez menos com causas que precisavam ser mais debatidas e compreendidas. A mensagem pode ser importante, mas a forma que usamos ao transmiti-la é a chave para estimular a empatia. Ou seja, menos pregação cega-grosseira-sarcástica-autoritária e mais compreensão para com o próximo. Compreensão de verdade, sabe, principalmente com aqueles que não concordam com você.

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